VIVENDO COM PROPÓSITOS

VIVENDO COM PROPÓSITOS

Introdução

Por uma só coisa anseio: aprender o que se esconde atrás dos fenómenos; desvendar o mistério que me dá a vida e a morle; saber se uma presença invisível e imota se esconde além dojluxo visível e incessante do mundo.

Pergunto e torno a perguntar, golpeando o caos: quem nos planta nessa terra sem nos pedir licença ? Quem nos arranca da terra sem, nos pedir licença ?

Sou uma criatura fraca e efémera, feita de barro e sonhos. Mas sinto em mim o turbílhonar de todas as forças do Universo.

Antes de ser despedaçado, quero ter um instante para abrir os olhos e ver. Minha vida não tem outro objetivo. Quero achar uma razão de viver, de suportar o terrível espetáculo diário da doença, da fealdade, da injustiça e da morte.

Vim de um lugar obscuro, o Útero; vou para outro lugar obscuro, a Sepultura. Uma força me atira para fora do abismo negro; outra força me impele irresistivel–mente para dentro dele.

Nikos Kazantizakis

Acordei, certa manhã, impregnado da sensação de que a saga humana tem um andar de cima. E um andar de baixo. Qualquer pessoa que se sinta à vontade neste mundo, tal como se apresenta agora, não o percebeu adequadamente. Quem convive passivamente com as causas aparente­mente aleatórias que distinguem felizes de infelizes, no mínimo ainda não teve coragem de levantar a cortina para ver o que se passa do outro lado do mundo visível.

O mundo de contrastes remete–nos inevitavelmente à percepção de que a experiência existencial humana explica–se melhor pela metafísica. Quanto a mim, o piso térreo nunca me atraiu. As manchetes dos jornais jamais me satisfizeram, no sentido de explicar por que exatamente aque­les 117 passageiros morreram no acidente de avião ou por que justamente aquela mulher ficou viúva tão cedo. Por que alguém se torna bom samaritano e outro, monstro urbano? A sociologia, a psicologia, a antro­pologia e tantas outras logias jamais explicaram por que foi justamente o fulano, e não eu, quem nasceu na favela, tornou–se ajudante de traficante e morreu assassinado aos 17 anos numa briga de bar.

Sempre desconfiei que, por trás da trama humana no mundo visível, há fatores determinantes no mundo invisível. Já não me recordo quando foi que adquiri a convicção de que os fatores determinantes das biografias estão no mundo espiritual, não no plano histórico. Por essas razões, a trivialidade da vivência dos mortais sempre me entediou. “Crescer e mul­tiplicar” não resume satisfatoriamente a razão pela qual existo. Conside­ro blasfemo aquele que chama de vida apenas a sucessão de atividades inerentes à sobrevivência: comer, beber, dormir, procriar, trabalhar e ter prazer eventual.

Jamais passei um dia sem buscar discernir e estabelecer contato com as forças e personalidades que interagem e que se digladiam nos planos invisíveis, determinando a trama histórica que a maioria ingénua pensa comandar. No meu mundo cabem (e são imprescindíveis para que esse mundo faça sentido) Deus, o diabo, anjos e demónios. E os humanos. Todos os humanos. Sou obcecado por acessar esses lugares outros, essa dimensão espiritual, para transitar entre o espírito e o Espírito, de modo a poder cooperar com a causa em vez de navegar ao sabor dos efeitos.

Por conta disso, minhas noites adultas sempre foram maldormidas, passadas entre os cantos lúgubres dos labirintos da reflexão e as ilumina­das trilhas da oração, nas pistas deixadas pelos escritos sagrados. Passo madrugadas em claro. Fico deprimido durante dias após notícias catastró­ficas. Leio as Escrituras Sagradas com avidez para discernir a opinião de Deus sobre meu mundo, de dentro e de fora. Suplico socorro aos céus e busco luz para o entendimento na expectativa de ter o que dizer para as pessoas que amo. Peço a Deus que mostre sua cara para mim e através de mim. Já não me basta crer e esperar. Anseio ver e interferir.

– Minha biografia possui páginas com histórias de violência e de assas­sinatos; tráfico de drogas e jogo do bicho; adultérios, estupros e abuso sexual infantil; miséria e desespero suicida; família e favela; igreja e ami­gos de rua; amizades, amores e orfandade. O barulho dos tiroteios pela vizinhança, que me enchiam de pavor durante a noite, ainda faz eco em alguns recantos de minhas memórias emocionais. Naquele tempo, eu era o primeiro a me recolher para dormir. O movimento da casa e as luzes acesas me traziam uma agradável sensação de segurança em razão de saber que alguém estava acordado vigiando portas e janelas contra invasões indesejadas e balas perdidas. As vezes em que, por alguma razão, eu ficava por último, a responsabilidade de percorrer a casa para apagar as luzes e verificar as trancas recaía como um fardo insuportável sobre meus om­bros. Cada barulho do quintal podia significar perigo real e imediato. Aquelas eram as noites mais longas. Ainda tenho o registro da manhã em que acordei com policiais trocando tiros com traficantes na porta de mi­nha casa, enquanto avisavam os moradores quanto à possibilidade de um bandido qualquer estar escondido no armário ou na casa do cachorro. Algumas vezes, passei para o outro lado da calçada, a caminho da escola, evitando o constrangimento de ter de pular um cadáver coberto de jornal nas esquinas próximas de casa. Não poucas vezes, ouvi de meninas que faltaram a aula, porque foram estupradas na noite anterior. Vivi boa parte de minha adolescência envolto em maresia, do mar e da maconha, que emoldurava as maravilhosas tardes de bate–bola na areia da praia do José Menino, em Santos.

A geometria dos corredores, salões e armários do orfanato que me abrigou ainda me é peculiar. As cores mais vivas, entretanto, estão mesmo sobre os degraus da escada da frente, onde eu me sentava como que foto­grafando cada sorriso de criança chamada pelo nome com a chegada da mãe ao final do dia. Todas as crianças partiam, e meus olhos ficavam fixos no chão xadrez do hall até minha avó me encaminhar carinhosamente para trás das imensas portas que nos protegeriam abrigados, somente os dois, naquela imensidão. Sobre pessoas desorganizadas existencialmente tenho boas lembranças. E dolorosas experiências.

Os rodopios das mulheres ao vento das pombagiras encontram lugar na minha tela biográfica. As correrias de setembro, em busca de doces distribuídos no “dia de Cosme e Damião”, outrora inocentes brincadeiras explicadas pelo apetite juvenil por glicose esculpida, agora se revelam expressões de devoção espiritual. As velas, despachos, garrafas de bebi­das fortes nas esquinas, os inúmeros amuletos e colares coloridos que meus amigos exibiam e o barulho dos atabaques que marcavam o ritmo das noites de sexta–feira encaixam–se como correntes da escravidão, que amarravam gente com vida completamente embaraçada e marcada pela podridão moral. Jamais me esqueci da noite em que ficamos, os primos, olhando, da sacada do apartamento de frente para o mar, minha tia ro­dopiando na praia levada, de um lado para outro, por espíritos que chamo de demónios.

O mundo cor–de–rosa não durou muito para mim. Desde meus oito anos de idade, convivo com as mais diversas histórias de mazelas pessoais e familiares. Não me lembro de ter acreditado em Papai Noel. Cresci cedo. Os miseráveis moradores da favela e as pobres crianças que meus filhos vêem apenas da janela do carro nos grandes cruzamentos da cidade de São Paulo eram os meninos com quem eu jogava bola e trocava pontapés nas brigas de rua. A favela ficava ao lado.

Mas o cristianismo fala de outro lugar, de outro estado de ser, de outra possibilidade de relação cora Deus, o Criador amoroso que não desistiu de sua criação. Minha biografia também. Hoje entendo quando Deus me olha nos olhos e sussurra repetidas vezes: “Com amor eterno eu te amei… com benignidade te atraí” (Jeremias 31:3, ARA). Esse amor eterno é a única explicação para que eu tenha sido preservado em meio a tantas idas e vindas.

Minha peregrinação teve início na eternidade. Foi sempre protegida pela incansável luta de minha mãe que, viúva aos 22 anos de idade, colo­cou sob suas asas duas crianças e correu incansavelmente atrás do pão de cada dia. Ninguém me tira da cabeça que o Milton Nascimento escreveu a canção para ela. Ela, que tem “um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta; uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta”. Ela que é “a dose mais forte e lenta, de uma gente que ri quando deve chorar, e não vive, apenas aguenta”. Ela que tem “força, raça, gana, manha, graça, e sonho, e mistura a dor e a alegria”. Ela que traz “na pele essa marca, e possui a estranha mania de ter fé na vida”. Minha mãe, que hoje se parece muito com a outra Maria, pois o Filho de Deus também fez morada em seu coração. Depois de minha mãe, minha história passou por um orfanato evangélico e foi regada por dezenas de histórias bíblicas que minha avó me contava. Histórias que fincaram raízes por causa das cente­nas de vezes em que contemplei aquela mulher solitária, também viúva em sua juventude, ajoelhada em oração. Ao lado, corriam alguns homens especiais, que me amaram com todas as forças de sua alma e fizeram o possível e o impossível para suprir a minha carência de pai.

Aos onze anos, tive meu nome incluído no rol de membros de uma comunidade cristã evangélica, quando minha peregrinação espiritual foi molhada nas águas batismais de uma Igreja Batista fincada na entrada do solo árido da favela mais violenta da cidade do Rio de Janeiro – Acari –em maio de 1975.

Desde então, quando oficializei minha entrada nos horizontes do cor­po místico de Cristo, passei a ser acompanhado por uma nuvem do céu: anjos, amigos, mentores, irmãos. Uma nuvem do céu que, depois de longa caminhada e de muita poeira nos pés e na alma, fez–me assentar à mesa em família, com minha mulher e meus filhos – a ante–sala do céu, o paraíso numa Terra marcada pelo caos.

Assim observo minha trajetória. Essa é a leitura que faço de tantas “coincidências” que me fizeram ser quem sou. As perguntas que sempre povoaram meus recônditos mais íntimos encontraram calmaria no cris­tianismo. Especialmente na compreensão judaico–cristã, que afirma que vivemos num parêntese da história. Um parêntese entre o paraíso e o céu. Aprendi que viver é peregrinar. Uma peregrinação visível cheia de interações invisíveis. Viver é transitar entre um lugar e outro, um estado de ser e outro, uma condição humana e outra, um mundo e outro. Fui criado na estrada. Cresci na rua. Morei em muitas casas e frequentei mui­tas escolas. Substituí amigos e me adaptei diversas vezes. Ou, quem sabe, não me adaptei até hoje. Pois continuo peregrino. Não sinto que cheguei.

Talvez esse senso de transitoriedade que me foi inculcado na infân­cia explique minha disposição para experimentar e minha vontade de descobrir. Minha biografia é uma história de estar a caminho, e justa­mente assim, ou por isso mesmo, enxergo a experiência espiritual como uma peregrinação.

Vejo a existência humana como uma peregrinação rumo às verdadei­ras dimensões da vida. Uma peregrinação em companhia de pares que nos são acrescentados ao longo da trilha. Ninguém peregrina sozinho. Caminha, inclusive, ao lado de companhei­ros invisíveis aos olhos humanos. Quanto maior a capacidade de discernir e de escolher companhias, maior a possibilidade de êxito do peregrino.

Também é verdade que ninguém peregrina apenas pelas estradas do aqui e agora, mas também, e principalmente, pelas regiões do ali e além. Quanto mais o peregrino for capaz de discernir e de interferir no outro mundo, maior a possibilidade de êxito neste mundo.

A perspectiva da peregrinação solidária é a melhor leitura que consigo fazer da experiência espiritual judaico–cristã. O cristão é um peregrino. O cristão é um peregrino que caminha em comunhão. O cristianismo é a trilha da intimidade com Deus e com o próximo. Cristia­nismo é conexão.

A partir de Adão, o primeiro ser humano, protótipo de todos nós, a experiência de peregrinação é compartilhada com toda a humanidade. Essa peregrinação não é o caminho da volta ao paraíso nem a elabora­ção psíquico–emocional daqueles para quem a vida não transcorreu por vias consideradas normais. Não se trata de fuga para o céu nem da busca de equilíbrio interior–intimista. A peregrinação não é apenas psíquica e emocional, mas também essencialmente espiritual. Não é necessária para uns poucos traumatizados por experiências circuns­tanciais, mas sim uma tarefa imprescindível a todo ser humano rumo ao máximo de suas possibilidades como ser criado à imagem e semelhança de Deus.

O ser humano é um peregrino, e a tradição de espiritualidade judai–co–cristã é o melhor mapa que encontrei. Viver é caminhar. A vida faz sentido quando conseguimos extrair o sen­tido de cada momento, cada kairós*, cada dia. O sentido da vida está em viver. Mas não um viver qualquer. Um viver qualquer é mera existência, suceder de dias. Há um jeito de viver, e esse jeito de viver está embutido em cada ser humano em duas dimensões. A pri­meira é universal, a imago Dei, matriz divina da qual todos somos herdeiros. A segunda é singular, pois cada ser humano é um origi­nal. A capacidade de viver um momento de cada vez, expressando a imago Dei por meio de minha singularidade, é o que chamo vi­ver com propósito. Assim, espero encontrar a felicidade ali e além, mas também aqui e agora.

 

Parte I

Imago Dei

 

1

Felicidade

Cometi o pior dos pecados

que um homem possa cometer:

Não fui feliz.

Que os glaciares do esquecimento

me arrastem e percam, desapiedados.

Meus pais me engendraram

para o jogo arriscado e formoso da vida,

Para a terra, a água, o ar, o fogo.

Eu os defraudei. Não fui feliz.

Cumprida não foi sua jovem vontade.

Minha mente se aplicou

às simétricas porfias da arte,

que entretece o nada.

Me legaram valor, não fui valente.

Não me abandona, sempre está ao meu lado

a sombra de haver sido um infeliz.

 

Jorge Luiz Borges

 

O PARADIGMA DA FELICIDADE

Pesquisas recentes1 mostram que as pessoas possuem um ponto de estabi­lização da felicidade, um nível de alegria ao qual se retorna, não importa se o indivíduo tenha ganhado na loteria ou perdido a capacidade de utilizar seus membros. As experiências que muitos acreditam conduzir à felici­dade não passam de picos de prazer, que logo se dissipam e devolvem a pessoa a seu status padrão de contentamento. A neurociência está desco­brindo que, quando as pessoas falam em felicidade, na verdade estão descrevendo estados de espírito, momentos em que se sentem bem em comparação a outros em que experimentam algum tipo de desconforto. Parece correto, portanto, afirmar que as pessoas derivam seu conceito de felicidade de duas matrizes fundamentais: a intensidade e quantidade de experiências de pico de alegria e a média do estado de espírito no in­tervalo entre os picos eufóricos. Quando a vida de uma pessoa é cheia de boas notícias e seu estado de espírito mais comum é satisfatório, ela diz que é feliz. Regra geral, todos nós vivemos em ciclos de estados de espírito, e da dinâmica desses ciclos derivamos nosso “nível de felicidade”.

TRÊS EQUÍVOCOS A RESPEITO DA FELICIDADE

Há gente que pensa que a felicidade tem fórmula, que não pode aconte­cer sem determinados pré–requisitos cumpridos. Mas a verdade é que certas coisas que muita gente acha que tornam a vida melhor – tais como dinheiro, beleza ou projeção social – não parecem ter importância como fator determinante da felicidade. Estudos realizados mostraram que as pessoas ficam felizes logo após um aumento de salário, mas que não há relação entre salário e felicidade definitiva. Não importa quão animado seja o dia da formatura, a educação não faz a vida mais feliz. Da mesma forma, avanços na vida social não têm efeitos profundos sobre a felicida­de, pois a felicidade não está relacionada às circunstâncias imediatas da vida. Oscar Wilde tinha certa razão quando afirmou que “neste mundo só há duas tragédias – uma é não conseguir o que se quer, a outra é con­seguir”. De fato, nunca estamos satisfeitos, pois tão logo conquistamos um desejo, somos invadidos pela sensação de “não era bem isso o que eu queria”.

Outro equívoco muito comum a respeito da felicidade é a expectati­va de viver num estado de espírito de alegria perene. O sentir–se bem não é permanente, nem poderia ser, pois o resultado seria uma compla­cência prazerosa. “A natureza utiliza a dor e o prazer como um bastão para nos guiar”, diz o psicólogo David Lykken.2 Há quem diga, e com certa dose de razão, que a insatisfação é a mãe do progresso, pois a engenhosidade humana é resultado da busca constante de mais conforto ede menos sofrimento. Por essa razão, um povo feliz pode se tornar um povo inerte, acomodado em um prazer que anestesia e que paralisa.

Um terceiro equívoco a respeito de felicidade é a crença no destino aleatório, como se algumas pessoas tivessem nascido para ser felizes e ou­tras não. Na verdade, a felicidade não chega por acaso, desrespeitando a autonomia da pessoa que a experimenta. Isso significa que não estamos ao sabor das alterações de humor, como se elas não dependessem da maneira como vivemos. Somos responsáveis pela qualidade da vida que temos. Let it be nunca foi uma filosofia de vida eficaz.

O ESTADO DE ESPÍRITO PERTURBADO

O grande desafio que enfrentamos na correria do dia–a–dia diz respeito à capacidade de administrar os estados de espírito com que atravessamos nossa rotina diária e desfrutamos as experiências simples que compõem a teia do que chamamos vida. Aprendi que a vida não consiste em poucos grandes momentos, mas sim em milhares de pequenos momentos aos quais emprestamos significado. Casamos uma vez, e devemos viver casados para sempre. Graduamo–nos academicamente algumas vezes, mas devemos exercer nossas compe­tências todo dia, numa rotina que chama­mos trabalho. Olhamos o vidro do berçário umas poucas vezes em busca dos nossos re–cém–nascidos, mas devemos contemplar suas faces cheias de expectativas todas as manhãs e jamais deixar que se deitem sem o nosso  afago (e quando eles saem do ninho, que falta sentimos!). Enfim, é mesmo verdade que a felicidade não depende tanto, por exemplo, de dias como o do casamento, o da formatura e o da festa na maternidade, mas sim do romance que se aprofunda, do trabalho que se realiza e da vida em família num ambiente de afeto e de possibilidades.

É justamente nessa teia de atividades rotineiras que somos desafiados a experimentar a felicidade. No contexto desses milhares de pequenos momentos é que somos desafiados a cultivar um estado de espírito satisfatório, próprio de quem aprende a saborear o amor aos pedaços.

Muitas pessoas, entretanto, se tivessem de descrever seu estado de es­pírito mais comum, poderiam substituir a palavra felicidade por outras como preocupação, ansiedade e angústia. São palavras quase sinónimas, que identificam um estado de espírito perturbado e insatisfeito. Sofrem com isso os que estão conscientes desse estado ou que, de vez em quando, surpresos, deparam–se com ele.

Esse estado de espírito perturbado tem diversas causas. Uma delas é o excesso de responsabilidades e de solicitações, que nos conduz ao excesso de ocupação. Apesar de estarmos tão atarefados, carregamos a constante sensação de que ainda não cumprimos todas as nossas obrigações ou de que não as cumprimos com o padrão de qualidade que gostaríamos. Os diferentes papéis que desempenhamos na vida, como, por exemplo, côn­juges, pais, filhos, profissionais, amigos, cidadãos, cobrem–nos de obriga­ções intransferíveis e lotam nossas agendas. Por essas razões, acabamos assumindo mais compromissos do que somos capazes de cumprir ade­quadamente, e o resultado é que oneramos uma ou outra parte de nossa saúde, senão todas elas.

Não apenas estamos cheios de responsabilidades, de solicitações e de ocupações, como também convivemos com um excesso de suposições. Possuímos uma mente repleta de “se”. Essa multidão de “se” é responsá­vel por nossas preocupações: se o exame der positivo, se eu for cortado este mês, se eu não alcançar minhas metas de vendas, se o ônibus atrasar, se ele não me quiser mais, se o dinheiro não for suficiente, se o proprie­tário não aceitar negociar, se, se…

Estranhamente, estar sobrecarregado tornou–se símbolo de status, e a ausência de preocupação uma situação perigosa que sugere falta de realis­mo, negligência ou irresponsabilidade. Por alguma razão (e, por vezes, infelizmente acertada), acreditamos que restaurante bom é aquele que tem fila de espera, médico competente é aquele que tem horário disponível para consultas apenas no próximo mês, profissional excelente é aquele superatarefado.

Além das responsabilidades, ocupações, solicitações e suposições, mul–tiplicam–se sobre nós as possibilidades. Vivemos sob a sugestão de que não podemos deixar de assistir àquele filme, de ler aquele livro, de visitar aquela cidade, de almoçar naquele restaurante ou de conhecer aquela pessoa. Estamos na era da informação, e a cada semana, ou mesmo a cada dia, um novo livro em nossa área de atividade é publicado, uma nova competência profissional é lançada como moda e uma nova tranqueira tecnológica é despejada no mercado. Além disso, dezenas de e–mails com recados do tipo “essa você não pode deixar de ler” lotam nossas máquinas diariamente.

A VIDA E SEUS LIMÕES

Ávida nem sempre nos trata como desejamos. O mundo é injusto. As tra­gédias e calamidades não escolhem a quem tentar destruir. De quando em vez, nada mais coerente do que estar com o estado de espírito perturbado.

Uma das mais intrigantes passagens da vida de Jesus aconteceu às portas do túmulo de Lázaro, seu amigo, narrada no Evangelho de João, capítu­lo 11. Na verdade, a notícia de que Lázaro estava gravemente enferrno chegara quatro dias antes, com as palavras: “Aquele a quem tu amas está à morte”. Jesus não se abalou com a notícia nem alterou seus planos ime­diatos, pois tinha propósitos muito mais elevados do que a simples cura física de um amigo. Ao chegar à casa de Lázaro, recebe a notícia de que ele estava morto havia quatro dias. Nesse momento, chora. Mas por que chora? Aliás, parece mesmo contraditório que Jesus, sabendo que res­suscitaria Lázaro dali a poucos minutos, se entregasse às lágrimas e se deixasse invadir por sentimentos, para a maioria de nós, indesejados.

Mas acredito em outra possível leitura do evento. O fato de que Lázaro voltaria à vida em poucos minutos não anulava a realidade de que, naque­le exato momento, estava morto. Diante de um amigo morto e rodeado de pessoas desesperadas, nada mais coerente do que sentir o espírito pertur­bado, no mínimo, por solidariedade e empatia. Jesus vivia um momento de cada vez. Aquele era um momento de morte, desespero e desesperança. Jesus chorou com elas, chorou por elas e por ele mesmo, quem sabe.

Nada mais natural do que o pranto no momento do luto, a angústia na situação de fome, o medo no meio da guerra, enfim, a cara contorcida no momento em que a vida mostra–se amarga. Isso significa que nem todas as pessoas que vivem com um estado de espírito perturbado são responsáveis pelas causas que geraram a perturbação. Os profetas da auto–ajuda dizem que a causa do sofrimento não é o mundo, e sim nossa atitu­de diante dele. Mas nem sempre o estado de espírito perturbado começa do lado de dentro do coração. Não raras vezes, resulta de circunstâncias adversas, variáveis fora do controle de mortais como nós. O mundo não obedece à justiça retributiva: coisas boas para pessoas boas, coisas ruins para pessoas ruins. Até porque ninguém é totalmente mal. E ninguém é totalmente bom. Assim também o mundo e a vida. A história, que tem como protagonistas pessoas em quem o bem e o mal se misturam e se confundem, não poderia ser tão exata. Por essa razão, de vez em quando acontecem coisas ruins para pessoas boas, coisas boas para pessoas ruins, e ninguém se surpreende mais quando acontecem coisas ruins para todo mundo.

Portanto, o melhor que temos a fazer é repetir a conduta do poeta bíblico. Ao menor sinal de perturbação, devemos perguntar: “Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada den­tro de mim?”. Não serão poucas as ocasiões em que ficaremos surpresos quando a alma nos oferecer suas razões. Nessas horas, sentar e chorar é um ótimo remédio. Afinal, quando a dor é real e as causas podem ser cla­ramente identificadas, a lágrima é a menor distância do sorriso.

Mas além dos excessos e das circunstâncias da vida, nosso estado de espíri­to perturbado é influenciado também por nossas características pessoais, isto é, o conjunto de filtros herdados ou aprendidos por meio dos quais interagimos com o mundo. Praticamente todas as nossas posturas na vida podem ser explicadas pelo mix personalidade–cultura–ambiente social. Poucas são as pessoas que conseguem estourar essa bolha e caminhar em direção à transformação pessoal e à contracultura, impondo sua identi­dade própria e assumindo suas preferências independentemente da úl­tima moda.

Por exemplo, pessoas que cresceram num ambiente de cobranças e de exigências exageradas acabam desenvolvendo um general dentro de sua consciência e sofrem de um perfeccionismo doentio, enquanto outras são mais complacentes, displicentes e até mesmo irresponsáveis. É evidente que cada uma reage ao atraso em uma reunião importante ou à demora na entrega de uma encomenda de maneira diferente. Há pessoas que se inco­modam com outras pessoas, enquanto outras se incomodam com coisas. Podemos encontrar gente que fica insuportável quando não dorme o sufi­ciente, e outros que se transformam quando estão com fome. O fato é que, se há dez pessoas vivendo a mesma situação, provavelmente haverá dez reações diferentes.

O grau de maturidade pessoal também afeta radicalmente o estado de espírito. Os motivos considerados suficientes para experimentar alegria e dissabor variam de pessoa para pessoa, e isso está relacionado com os valo­res e até mesmo com o caráter. Uma criança chora quando cai seu sorvete, atitude que não se espera de um adulto. Por outro lado, é comum ouvir crianças perguntando: — Por que a mamãe está chorando? Demonstram, assim, sua incapacidade de discernir a dor para todos evidente. Há pessoas que não conseguem dormir porque atrasaram o pagamento do aluguel, enquanto outras não perdem o sono mesmo devendo meses de cartão de crédito. O estado de espírito pertur­bado pode ser explicado pela escala de valores de uma pessoa e pela maneira como se vê responsável diante do direito de viver.

Mas além de todas essas limitações herdadas e ou desenvolvidas, tal­vez o maior fator de distinção na maneira como as pessoas reagem à vida é a fé. A fé percebe uma Presença, a presença de Deus. A fé invoca uma Presença, a presença de Deus. A fé sabe que, por trás do cenário visível, das estatísticas e das probabilidades, existe Alguém interagindo na situação:

Deus. Os recursos humanos resultantes da fé são ainda um mistério para a ciência. Quem é capaz de exercitar a fé vê mais longe, voa mais alto, chega mais adiante.

INIMIGO ÍNTIMO

As discussões a respeito de ser o homem essencialmente bom, ou essencial­mente mau, como já observamos, são extensas e não nos interessam aqui, pelo menos por enquanto. Mas a experiência diz que, independentemente do que o homem é em essência, ele é naturalmente egoísta, egocêntrico, voltado para si mesmo e para seu próprio bem–estar e conforto. Essa característica do homem, em que predomina o ego e faz com que ele desenvolva uma espécie de teomania, é aquilo que os teólogos chamam pecado essencial ou original. Algo como um status do ser que pretende bastar–se. Em outras palavras, a criatura deu as costas para o Criador e pretendeu construir seu próprio mundo, com suas próprias leis, e administrá–lo com suas próprias capacidades.

A Bíblia fala de três tipos de pessoas: natural, carnal e espiritual.3 A primeira, natural, é simplesmente dominada pelos instintos da biossobrevivência, mais parecida com um bicho do que com gente. A se­gunda, carnal, vai um pouco mais longe e adquire consciência, mas dela se utiliza apenas para tentar exercer domínio em benefício próprio. A terceira, espiritual, transcendeu seu próprio universo de interesses e de necessidades e tornou–se altruísta, solidária, capaz de partilhar e de em­preender na comunhão.

Em termos simples, o ser humano está em constante luta entre essas dimensões de sua constituição. Em linguagem bíblica, diz–se que o espí­rito luta contra a carne, e todo aquele que deseja experimentar a vida plena deve negar seu próprio ego. Esse conflito é ilustrado em extremo na experiência de Paulo, o apóstolo, quando grita desesperado: “Miserá­vel homem que eu sou! […] Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio. […] Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá–lo”.4O que ele está dizendo é que existe dentro dele um inimigo íntimo, um ego que o impede de expressar sua verda­deira identidade. Por essa razão, a Bíblia diz que o homem é pecador, isto é, vive sob o domínio “da carne” e do ego, fazendo a vontade de seus desejos e pensamentos autónomos em relação ao Criador, matriz e fonte de vida.5

Não tenho dúvida de que boa parte, senão a totalidade, da infelicida­de humana explica–se por essa tendência de viver de maneira egoísta. Num mundo tão diverso, ninguém consegue ser feliz se tudo o que valoriza é seu conforto e bem–estar pessoal. Por mais distintas que sejam, todas as tradições de espiritualidade têm um ponto comum: concordam que as pessoas mais estabilizadas na vida, e por que não dizer, felizes, são aquelas que cultivam o espírito abnegado, solidário, altruísta. Esse é mais um, se­não o, paradoxo da vida: o caminho da auto–realização é a negação do ego.

PODE SER PIOR

Esse estado de espírito perturbado torna–se muito pior quando tempe­rado pela culpa religiosa, especialmente para algumas pessoas sinceras e esclarecidas em sua experiência espiritual que não encontram explicação

para o descompasso entre a fé e sua condi­ção existencial. Como pouquíssima gente tem coragem de afirmar que Deus não fun­ciona, a maioria acaba desconfiando da qua­lidade de sua fé ou de sua dinâmica de vida. A convicção de que Deus resolveria todos os problemas, somada à experiência da per­turbação interior, leva ao desespero quem está perdendo a guerra mesmo em parce­ria com um Aliado onipotente. Isto é, quem acreditou que Deus seria a solução para uma vida plena, mas que, mes­mo sendo íntegro em suas obrigações, ainda assim vive um estado de espírito perturbado, chegou no limite e pergunta–se: “o que vem depois de Deus?” ou “o que posso tentar seja tentei até mesmo Deus?”.

Creio que não são poucos os que estão sinceramente errados em sua peregrinação espiritual. Caso seja possível, e assim creio, existe muita gente relacionando–se com o Deus certo, mas da maneira errada. Estão iludidos por falsas convicções a respeito de como experimentar a bonda­de de Deus. Crêem, de fato, que Deus é capaz de oferecer descanso para as nossas almas, de encher–nos de paz que excede todo entendimento, de alegria plena e de vida abundante (ou completa), mas desconhecem os processos da peregrinação espiritual e podem enquadrar–se em alguns , dos principais equívocos a respeito da dinâmica da espiritualidade cristã. São capazes, por exemplo, de acreditar que as dádivas de Deus independem de suas próprias atitudes. Imaginam que os favores de Deus vêm automaticamente pelo simples fato de que crêem em Deus. Por exem­plo, acreditam que podem continuar vivendo de maneira egoísta, orgu­lhosos de sua humildade e cheios de empáfia contra aqueles que, pelo menos em sua opinião, são menos iluminados. Talvez não tenham ouvido que Deus opõe–se aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes, e que se alegra em atender os que pedem com fé, sem vacilar.

Por outro lado, há os que imaginam que as dádivas de Deus são res­postas apenas às atitudes interiores abstraías e que desconsideram a ne­cessidade dos exercícios espirituais, da busca disciplinada, do esmurrar __ o corpo para não ser desqualificado, da oração perseverante, do estudo incansável das Escrituras Sagradas para que a Lei seja alimento de medi­tação diuturna.

Há os que pensam que todos os favores de Deus são experimentados em termos definitivos, isto é, aquele que recebeu uma graça fica com ela para sempre. Perguntam–se, atónitos: “Mas não entreguei minha vida a Deus? Então, por que não tenho alegria?” Talvez, careçam ouvir o apósto­lo Paulo ensinando que a alegria é fruto do Espírito Santo e que apenas aqueles que se deixam continuamente en­cher pelo Espírito a experimentam. Ou, quem sabe, devem atentar melhor para a declaração de que o caráter de Cristo é for­mado em nós processualmente, com glória cada vez maior, custando inclusive dores de parto aos que trabalham em nosso favor, de modo que somos sempre en­corajados a desenvolver nossa salvação com temor e tremor, algo como abrir a caixa de recursos que Deus colocou em nossas mãos e aprender a usar as ferramentas, uma de cada vez.

Existem também os que esperam uma experiência espiritual instan­tânea, que os conduza definitivamente a um status permanente de plena satisfação e realização. São pessoas que crêem que, se oraram hoje e Deus lhes apaziguou o coração a respeito da enfermidade do pai hospitaliza­do, não precisarão orar amanhã, pois já receberam a paz que excede todo o entendimento. Na manhã seguinte, ao se perceberem novamente perturbados, questionam onde está seu erro. Estaria Deus falhando em cumprir sua promessa, ou a fé com que buscaram a Deus era fraca? Ou, pior, Deus os estaria punindo por um pecado ou outro que desconheciam (ou, pior ainda, que conheciam)? Falta–lhes o esclarecimento de que a experiência espiritual cristã é dinâmica. Jesus não prometeu um copo de água que mataria definitivamente a sede. O que Jesus prometeu foi que, do interior de quem crê, brotará uma fonte a jorrar para a vida eterna, e isso sugere que a essa fonte devemos recorrer sempre, e nova­mente, e de novo, para que, toda vez, quando nosso espírito se perturbar ou for perturbado, encontremos descanso e provisão.

CONTENTAMENTO

É quase impossível encontrar uma definição completa e definitiva para a felicidade, mas é fato que, qualquer que seja sua definição, estará associada aos estados de espírito com os quais atravessamos a vida. Podemos, inclusi­ve, alongar a discussão a respeito da distinção entre ser feliz, estar feliz e sentir–se feliz, e sobre como a felicidade é diferente da alegria, que, por sua vez, é diferente da euforia. Mas isso é complicar demais a coisa. O fato é que, se você é feliz, então se sente feliz, e se você está feliz, também se sente feliz, e esse sentimento de felicidade é, necessariamente, um estado de espírito, que pode ser duradouro, razoavelmente comum ou eventual. Nesse caso, prefiro simplificar um pouco mais e trocar a palavra “fe­licidade” por “contentamento”, que defino como a capacidade de estar satisfeito (de adaptar–se) em qualquer situação. Esse tipo de contenta­mento não se explica pelas circunstâncias favoráveis e ou confortáveis, mas sim pela capacidade de exercer domínio sobre o estado de espírito de tal maneira que os fatores externos que o abalam sejam em número cada vez menor.

Contentamento é uma satisfação de dentro para fora. Vicente de Car­valho traduziu muito bem essa experiência do contentamento quando disse que a felicidade, essa árvore frondosa e cheia de frutos, existe sim, mas existe no lugar em que a plantamos, e o problema é que quase nunca a plantamos no lugar onde estamos. A expressão mais comum para os infe­lizes é que serão felizes “assim que…”. Assim que arrumarem um emprego novo; um romance novo; um carro novo; uma casa nova; um chefe novo; e tanto mais, cada vez mais.

Esse estilo de vida “assim que…” coloca a felicidade no futuro e perpetua o descon­tentamento, que impede a alegria de des­frutar o presente, as pessoas que temos em volta, as circunstâncias reais e imediatas que nos oferecem possibilidades de realização. A palavra contentamento deriva do latim contentu (“contido”) e sugere a ideia de conteúdo. Nesse caso, contente é aquele que tem conteúdo em si mesmo ou que é capaz de usufruir o conteúdo da realidade na qual está inserido. Em outras palavras, em qualquer lugar, em qualquer companhia, i em qualquer circunstância existe possibilidade de contentamento, mas  somente para aqueles que sabem explorar sua riqueza interior, ou as f potencialidades do momento, ou ambas.

Um momento de contentamento é aquele em que tudo parece certo: não há necessidade de mudar o que você está fazendo, nem a pessoa com quem você está, nem o lugar onde você se encontra. É comum ouvir–se que a felicidade é estar numa ilha paradisíaca em companhia da mulher, ou do homem, de minha vida. Mas suspeito que seja uma afirmação extre­mamente absurda. Isso seria ótimo por alguns dias, mas logo se tornaria entediante, monótono, vazio. Há outras dimensões da vida a experimen­tar além da paixão alucinante, outras potencialidades do ser a realizar além da capacidade do amor romântico. Ruth Rocha tem um livro “in­fantil” chamado Uma estaria meio ao contrário, que inicia com o beijo do príncipe na princesa, e a frase: “E foram felizes para sempre”. Na outra página, a história segue com a expressão: “E era muito chato”. De fato, a ideia de paraíso sem labor e só lazer, mano, é insuportável. Um Deus criativo jamais criaria um ser estéril, muito menos chamaria de paraíso um lugar povoado de parasitas.

Trago ainda na lembrança minha experiência de participar da Mara­tona de Nova York em companhia de meu amigo Ricardo. Agora mesmo, enquanto escrevo, consigo me lembrar de um trecho da 5th Avenue, em Manhattan, onde as dores nas pernas pareciam insuportáveis. Naquele momento, entretanto, apesar da dor e do desconforto, eu estava (era) feliz. Não havia outro lugar, outra atividade ou outra pessoa a meu lado que eu desejasse mais naquela hora.

Mas se você perguntar se eu desejaria perpetuar aquele momento, eu evidentemente diria que “não”, pois alguns minutos mais adiante, encon­trei o abraço apertado e amoroso da minha esposa, Silvia, e aquele foi o melhor lugar do mundo. E, depois, o abraço dos meus amigos Paulo e Eloíse. E, depois, a alegria de um jantar maravilhoso na casa do Israel e da Andréa; jantar, aliás, interrompido pelo inesquecível telefonema de meus filhos, Fernanda e Vitor, curiosos e animados, com os braços os mais com­pridos do planeta, que atravessaram milhas e milhas para me dar um abraço gostoso. E, depois, na volta ao Brasil, e o reencontro com os companheiros que me encorajaram nas madrugadas frias do Parque do Ibirapuera, en­quanto me preparava para a Maratona. E, depois… depois, outros tantos momentos.

Como disse Gilberto Gil, “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”. Não sei, nem quero saber, qual era o lugar e o momento aos quais o poeta se referia, pois creio que a vida é cheia de “lugares” e de “agoras”. E a felicidade implica a possibilidade de, esteja onde estiver, com quem esti­ver, não importa o que esteja fazendo, dizer: o melhor lugar do mundo é aqui e agora. Como disse Viktor Frankl, psicanalista vienense:

A realidade sempre se apresenta na forma de uma particular situa­ção concreta e, uma vez que cada situação de vida é irrepetível, segue–se que o sentido de uma dada situação é único. Os significados dos momentos que são únicos são objetos da descoberta pessoal. Eles devem ser procurados e encontrados por cada um. Desde que a situa­ção é sempre única, com um sentido que é também necessariamente único, segue–se que a possibilidade de fazer qualquer coisa em rela­ção à situação é também única, porque é transitória. Ela possui uma qualidade, um kairós, isto é, se não aproveitarmos a oportunidade de dinamizar o sentido intrínseco e como que mergulhado na situação, o sentido passará e irá embora para sempre.6

Por essa razão, a felicidade é muito mais um jeito de ir do que um lugar aonde se chega. O ditado chinês ensina que “os caminhos existem para jornadas e não para destinos”. Exatamente por isso Jesus de Nazaré reco­mendou a seus discípulos que não se inquietassem quanto ao dia de ama­nhã, nem se ocupassem com o que beber, o que comer, com que se vestir, pois o Deus que cuida dos passarinhos e das flores cuida também de seus filhos. Quem não é capaz de “presentificar” a vida nunca será feliz, pois a felicidade estará sempre um pouquinho à frente, assim que…

EM SÍNTESE

Esse conceito de felicidade como contentamento, estar satisfeito e/ou adap­tado em qualquer circunstância, além de ser coerente com a informação de que “as pessoas possuem um ponto de estabilização da felicidade, um iiível de alegria ao qual se retorna, não importa se o indivíduo tenha ganhado na loteria ou perdido a capacidade de utilizar seus membros”, também nos ensina que o grande desafio que enfrentamos consiste em viver de modo consciente, atentos às potencialidades e ameaças de cada momento da vida, de modo a nos tornarmos senhores dos nossos estados de espírito.

Mas, infelizmente, devo concordar com Thoreau quando diz que a grande maioria dos homens vive uma vida de silencioso desespero”. Por baixo do pano escuro da noite, quando as luzes se apagam e restam apenas os labirintos da mente como trilha para o encontro com o descanso, muita gente repousa infeliz. Sua sorte, ou infortúnio, é que durante o dia quase ninguém percebe; disfarçam bem ou convivem com gente igualmente ocupada em disfarçar, que não consegue perceber quão ruins os atores Isão no palco da vida. Algumas pessoas retrucariam:

— Eu não sou tão infeliz como você está sugerindo. Acredito. Na verdade, conheço muitas pessoas assim. Mas não invejo suas vidas. E desconfio de que nem mesmo elas se orgulham da vida que têm, pois se a infelicidade não as descreve, também não é tão fácil encon­trar uma palavra que o faça. Têm vidas amorfas, vazias, e obedecem à mesmice da navegação de um marujo que não sabe para onde vai, que teme chegar a algum lugar indesejável e que cruza os dedos fazendo figa para que o acaso lhes reserve boa ventura. Vidas sonolentas, que se arras­tam em meio a rotinas enfadonhas. Gente que vive à espera da sexta–feira e que se arrepia quando a luz do quarto se apaga no domingo à noite, sem que nada interessante tenha acontecido no final de semana. Não têm uma cama onde repousar, deitam–se noite após noite numa cova de lençóis, se­pultando um projeto de vida fracassado e, ainda que inconscientemente, rolam de um lado para o outro imaginando alguma novidade inesperada que, como num passe de mágica, derrame adrenalina no dia seguinte. A infelicidade, para a maioria das pessoas, não é um sofrimento constante, com lágrimas derramadas de hora em hora, mas sim o seu oposto, justa­mente a ausência de lágrimas: não se emocionam, não se entristecem, não se desesperam, não se importam, não choram mais. E acham isso normal, sinal de maturidade, estabilidade emocional, de autocontrole. Eu chamo isso de apatia, dessensibilização, incapacidade de ser afetado pela vida.

Talvez por essa razão Borges seja tão celebrado. Viveu sua angústia sem dissimlulação. Sua confissão “não fui feliz” ecoa até hoje no mundo da literatura, que ainda tenta equacionar a genialidade com o fracasso existencial. O maior escritor argentino de todos os tempos e um dos gran­des do século xx, professor de literatura inglesa e norte–americana na Universidade de Buenos Aires e de poesia em Harvard, colecionou, ao longo da vida, os mais célebres prémios da literatura mundial. Celebrado como génio, deixou pisadas palmilhadas por centenas de novos escrito­res, que sonhavam repetir suas histórias fantásticas, e abriu portas para Umberto Eco e Gabriel Garcia Marquez, para citar apenas dois. Mas fra­cassou na vida. Ao completar 80 anos, em agosto de 1979, afirmou que estava cansado de viver. Conviveu com a cegueira durante 30 anos. Mor­reu cético, em profunda solidão, pois sempre preferiu as personagens às pessoas. O poema Instantes, erroneamente atribuído a ele, bem poderia servir como seu epitáfio.

Se eu pudesse viver novamente minha vida,

na próxima trataria de cometer mais erros.

Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.

Seria mais tolo ainda do que tenho sido,

na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiénico.

Correria mais riscos, viajaria mais,

contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas,

nadaria mais rios. Iria a mais lugares aonde nunca fui

tomaria mais sorvete e menos lentilha,

teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata

e produtivamente cada minuto da sua vida;

claro que tive apenas momentos de alegria.

Mas, se pudesse voltar a viver,

trataria de ter somente bons momentos.

Porque, se não sabem, disso é feito a vida,

só de momentos, não percam o agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma

sem um termometro, uma bolsa de água quente,

um guarda chuva e um pára–quedas;

se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver,

começaria a andar descalço no começo da primavera

e continuaria assim até o fim do outono.

Daria mais voltas na minha rua,

contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,

se tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.

 

Borges entendeu, talvez tarde demais, que a vida é cheia de pequenos mo­mentos que podem ser celebrados quando vividos com inteireza, amor e simplicidade, sem a necessidade de que se eternizem porque grandiosos, mas grandiosos porque vividos como eternos.

Também por isso não me dou por vencido. Sei que existe uma dimen­são de vida acima da mediocridade acomodada. Saio para uma maravilhosa aventura e convido você a vestir–se de coragem e me acompanhar na busca de respostas a algumas perguntas absolutamente relevantes para quem deseja uma vida plena: como experimentar um modo de viver satisfatório em meio ao turbilhão de responsabilidades, solicitações, ocupações, supo­sições e possibilidades? Aliás, é possível encaixar esse universo em sete dias de 24 horas? Como nos livrar do estresse, do enfado, do ressentimen­to, da vontade de sumir, do senso de vazio e de inutilidade e da culpa? Existe um jeito de ganhar o mundo sem perder a alma? É possível viver num estado de espírito que chamamos felicidade? Afinal, existe mesmo essa tal felicidade? E, se existe, como se define? E, se é possível defini–la, como experimentá–la?

 

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