Romanos – Comentários

Introdução

 

1. Época da Produção da Epístola

Paulo passou os dez anos que vão de 47 a 57 A. D. realizando intensa evangelização dos territórios que margeiam o Mar Egeu. Durante aqueles anos, concentrou-se sucessivamente nas províncias romanas da Galácia, da Macedônia, da Acaia e da Ãsia. O Evangelho fora pregado e igrejas tinham sido fundadas ao longo das principais estradas dessas províncias e em suas cidades principais. Paulo recebeu com justa seriedade a respon­sabilidade que lhe foi dada como apóstolo de Cristo entre os gentios. Bem podia contemplar com grato louvor não (como ele teria dito) o que ele fizera, mas o que Cristo havia feito juntamente com ele. O seu primeiro e grande plano de campanha estava agora realizado. Pôde deixar as igrejas que tinha estabelecido em Icônio, Filipos, Tessalônica, Corinto, Éfeso, e em muitas outras cidades daquelas quatro províncias, aos cuidados dos seus líderes espirituais, ou presbíteros, sob a soberana direção do Espírito Santo.

Mas a missão de Paulo não estava de forma alguma terminada. Durante o inverno de 56-57 A. D., que ele passou em Corinto, na casa de Gaio seu amigo que se convertera, ficou ansioso (com alguma apreensão) para fazer uma visita a Jerusalém no futuro imediato — pois tinha de cuidar da entrega de uma oferta em dinheiro aos presbíteros da igreja de lá, por cuja arrecadação estivera trabalhando alguns anos entre os gen­tios convertidos pelo seu intermédio. Esperava que essa oferta fortaleces­se os laços entre a igreja-mãe, na Judéia, e as igrejas gentílicas.1

Mas quando se consumou essa transação, Paulo ficou ansioso para lançar um plano que vinha tomando forma em sua mente nos últimos anos. Concluída sua missão nas terras banhadas pelo Mar Egeu, tinha de localizar novos campos a conquistar para Cristo. Ao fazer a escolha de uma nova esfera de atividade, resolveu fazer-se pioneiro. Não se esta­beleceria como apóstolo radicado num lugar já alcançado pelo Evan­gelho. Não iria “edificar sobre fundamento alheio” (Rm 15:20). Sua es­colha recaiu na Espanha, a mais antiga colônia romana no Ocidente e o principal baluarte da civilização romana naquelas partes.

Mas a excursão à Espanha lhe daria a oportunidade de satisfazer uma velha ambição — a ambição de ver Roma. Embora cidadão romano por direito de nascimento,2 nunca tinha visto a cidade da qual era ci­dadão. Quão esplêndido seria visitar Roma e passar algum tempo lá! Seria deveras esplêndido porque havia uma florescente igreja em Roma, e muitos cristãos que Paulo tinha encontrado aqui e ali em suas viagens, residiam agora em Roma e eram membros daquela Igreja. O próprio fato de que o Evangelho tinha chegado a Roma bem antes de Paulo, excluía Roma como lugar onde ele poderia estabelecer-se para fazer evangelização pioneira. Mas sabia que continuaria sua viagem para a Espanha com muito mais gosto se pudesse primeiro renovar seu espírito com algumas semanas de companheirismo com os cristãos de Roma.

Portanto, durante os primeiros dias do ano 57 A. D., ele ditou a seu amigo Tércio — cristão posto às suas ordens talvez por seu hospedeiro Gaio, para servir-lhe de secretário — uma carta destinada aos cristãos romanos. Esta carta visava prepará-los para a sua visita à cidade e explicar a finalidade da mesma. E julgou de bom alvitre, ao escrevê-la, oferecer-lhes uma completa exposição do Evangelho como ele o compreendia e o proclamava.

 

2. O Cristianismo em Roma

Os termos em que Paulo se dirige aos cristãos de Roma esclarecem que a igreja daquela cidade não era de organização tão recente. Mas quando tentamos determinar alguma coisa sobre a origem e a história dos primeiros períodos do cristianismo romano, encontramos bem poucos dados evidentes em que apoiar-nos. Temos de reconstruir a situação na medida do possível, baseados em várias referências literárias e ar­queológicas.

Conforme Atos 2:10, a multidão de peregrinos presentes em Jeru­salém para a festa de Pentecoste do ano 30 A. D., e que ouviu Pedro pregar o Evangelho, incluía “visitantes procedentes de Roma, tanto judeus como prosélitos” (RSV). Não temos informação sobre se alguns deles estavam entre os três mil que creram na mensagem de Pedro e foram batizados. Talvez seja significativo que aqueles visitantes romanos são o único grupo europeu a receber menção expressa entre os pere­grinos.

Em todo caso, todos os caminhos levavam a Roma e, uma vez que o cristianismo estava firmemente estabelecido na Palestina e nos territórios circunvizinhos, era inevitável que fosse levado para Roma. Dentro de um ano ou dois, se não — como pensa Foakes-Jackson — “no outono seguin­te à crucifixão, é bem possível que Jesus já recebesse honra na comu­nidade judaica de Roma como Aquele que esteve em Damasco”.1 O “pai” da igreja latina, do século quarto, a quem chamamos Ambrosias-tro, diz, no prefácio do seu comentário desta epístola, que os romanos “tinham abraçado a fé em Cristo, embora de acordo com o rito judaico, sem ver nenhum sinal de obras poderosas e nenhum dos apóstolos”. Evidentemente foram cristãos simples e comuns os primeiros a levar o Evangelho a Roma e a implantá-lo ali — provavelmente no seio da co­munidade judaica da capital.

Já no segundo século a.C. existia uma comunidade judaica em Roma. Seu número cresceu consideravelmente em conseqüência da con­quista da Judéia por Pompeu em 63 a.C, e seu “triunfo” em Roma dois anos mais tarde, quando muitos prisioneiros de guerra judeus coope­raram com a sua marcha, e depois receberam a liberdade. Em 59 a.C, Cícero faz alusão ao tamanho e à influência da colônia judaica de Ro­ma.2 No ano 19 A. D., os judeus de Roma foram expulsos da cidade por um decreto do imperador Tibério (ver p. 76), mas em poucos anos es­tavam de volta em número maior do que nunca. Não muito depois disto, registra-se outra expulsão em massa dos judeus de Roma, essa vez pelo imperador Cláudio (41-54 A. D.). Essa expulsão é mencionada ligei­ramente em Atos 18:2, onde se diz que Paulo, ao chegar a Corinto (provavelmente no fim do verão do ano 50 A. D.), “encontrou certo judeu chamado Áquila (…) recentemente chegado da Itália, com Priscila, sua mulher, em vista de ter Cláudio decretado que todos os judeus se retiras­sem de Roma”. A data do édito de expulsão é incerta, embora Orósio possa estar certo colocando-a no ano 49 A. D.3 Outras referências aparecem na literatura antiga, sendo a mais interessante uma nota que há na obra “Vida de Cláudio”, XXV.2, informando que o imperador “ex­pulsou de Roma os judeus porque estavam constantemente em rebelião, à instigação de Cresto (impulsore Chresto)”. Dá para pensar que este Cresto era um agitador judeu em Roma naquele tempo. Entretanto, o modo como Suetônio introduz seu nome torna muito mais provável que a rebelião tenha sido uma seqüência da introdução do cristianismo na comunidade judaica da capital. Escrevendo cerca de setenta anos mais tarde, Suetônio pode ter conhecido algum registro contemporâneo da ordem de expulsão, registro que mencionava Cresto como o líder de uma das partes envolvidas, e inferiu que ele estava realmente em Roma naquela ocasião. Decerto sabia que Chrestus (uma variante da ortografia gentílica de Christus) era o iniciador dos cristãos, aos quais descreve em outras partes como “per­niciosa e funesta classe de gente”. Bem podia parecer-lhe uma inferência muito razoável que Cresto tivesse tomado parte ativa no incentivo àquelas rebeliões.

Parece que Áquila e Priscila já eram cristãos antes de encontrarem Paulo. Provavelmente eram membros do grupo original de crentes em Jesus residentes em Roma. Não sabemos onde ou quando eles ouviram o Evangelho pela primeira vez. Paulo jamais dá a idéia de que eram seus filhos na fé. Mas podemos estar certos de que o grupo original de crentes da cidade de Roma consistia inteiramente de judeus cristãos, e que a or­dem de expulsão emitida por Cláudio acarretou a saída e a dispersão deles.

Contudo, os efeitos da ordem de expulsão duraram pouco. Não muito tempo depois, a comunidade judaica florescia uma vez mais em Roma, e o mesmo acontecia com a comunidade cristã. Menos de três anos depois da morte de Cláudio, Paulo pôde escrever aos cristãos de Roma e falar da fé que eles tinham como assunto que era do conhecimen­to universal. Bem pode ser que o édito de expulsão tenha caducado com a morte de Cláudio (54 A. D.), se não antes. Mas em 57 A, D., os cristãos de Roma incluíam gentios bem como judeus, conquanto Paulo faça lem­brar aos cristãos gentílicos que a base da comunidade é judaica, e que não a devem desprezar ainda que venham a superá-la em número (11:18).

Na verdade, o lastro judaico do cristianismo romano não foi es­quecido logo. Ainda no tempo de Hipólito (falecido em 235 A. D.), al­guns traços das práticas religiosas cristãs em Roma proclamavam sua origem judaica — origem que deve ser procurada no judaísmo sectário ou dissidente, e não em suas correntes principais. ‘6’

Se as saudações que se acham em 16:3-16 se destinavam a Roma e não a Éfeso (ver pp. 215-224), então podemos achar nelas alguma in­formação muito interessante a respeito dos membros da igreja romana em 57 A. D. Estes eram presumivelmente cristãos que Paulo tinha encon­trado em outros lugares durante sua carreira apostólica e que nesse tem­po residiam em Roma. Estavam incluídos entre eles alguns que eram dos primeiros cristãos da igreja primitiva, tais como Andrônico e Júnia (ou Júnias) que, como diz Paulo, “estavam em Cristo antes” dele próprio, e eram bem conhecidos nos círculos apostólicos, se é que não eram de fato reconhecidos como “apóstolos” (16:7). É razoável identificar o Rufo mencionado no versículo 13 com o filho de Simão Cireneu mencionado em Marcos 15:21. Paulo pode tê-lo conhecido, e à sua mãe, em Antioquia. Áquila e Priscila, que tinham sido compelidos a deixar Roma uns oito ou mais anos antes, estavam agora de novo na capital, e sua casa era um dos locais de reunião dos membros da igreja de lá (O fato de que a basílica — o estilo típico dos edifícios eclesiásticos primitivos — preserva o contorno de uma casa particular romana, lembra-nos que a casa-igreja era geralmente o lugar de reunião dos cristãos nos tempos primitivos.)

Com efeito, talvez o cristianismo já tivesse começado a exercer al­gum impacto nas altas camadas da sociedade romana. Em 57 A. D., ano em que Paulo escreveu sua Epístola aos Romanos, Pompônia Graecina, mulher de Aulo Pláutio (que acrescentou a província da Bretanha ao Im­pério Romano em 43 A. D.), foi julgada e absolvida por um tribunal doméstico, da acusação de haver abraçado uma “superstição estran­geira”, que podia ter sido o cristianismo. Mas aos olhos da maioria dos romanos que pouco sabiam do cristianismo, este era simplesmente outra enfadonha superstição oriental, a espécie de coisa que o satírico Juvenal tinha em mente sessenta anos mais tarde, quando se queixou do modo como os esgotos do Orontes se descarregavam no Tibre. (Visto que Antioquia, à margem do Orontes, era o lar do cristianismo gentílico, é provável que Juvenal considerasse o cristianismo gentílico como um dos elementos presentes naqueles esgotos.)

Sete anos depois da produção desta epístola, quando Roma foi devastada por enorme incêndio, e o imperador Nero procurou à sua volta bodes expiatórios para os quais pudesse desviar a suspeita popular (talvez injustamente) dirigida contra ele, encontrou-os perto e prontos. Os cris­tãos de Roma eram impopulares. Eram vistos como “inimigos da raça humana” e acusados de práticas criminosas como o incesto e o canibalis­mo. Por isso, fizeram-se em grande número vítimas do ódio imperial. E é essa perseguição movida por Nero que tradicionalmente compõe o ce­nário para o martírio de Paulo e de Pedro.

Três anos após escrever esta carta, Paulo afinal concretizou sua es­perança de visitar Roma. E o fez de um modo que não esperava ao es­crevê-la. O receio quanto à acolhida que lhe dariam em Jerusalém receio que expressara em 15:31 — provou-se bem fundado. Poucos dias depois de sua chegada ali, foi acusado perante as autoridades romanas da Judéia de ter feito grave ofensa à santidade do templo. O processo arrastou-se inconclusivamente, até que, por fim, Paulo se valeu dos seus direitos de cidadão romano e apelou para que sua causa fosse transferida para Roma, para a jurisdição direta do imperador. Foi, então, enviado para Roma. Depois de um naufrágio, e após invernar em Malta, chegou a Roma no princípio do ano 60 A. D. Quando estava sendo conduzido para o norte, pela Via Ápia, por um corpo militar de mensageiros sob cuja custódia estava, os cristãos de Roma, ouvindo falar de sua chegada, foram encontrá-lo em pontos situados a 50 ou 60 quilômetros do sul da cidade e lhe deram algo assim como uma escolta triunfal para o resto da viagem. Ver estes amigos foi uma fonte de grande estímulo para ele. Nos dois anos seguintes, Paulo ficou em Roma, mantido sob guarda em seus alojamentos particulares, com permissão para receber visitas e propagar o Evangelho no centro vital do império.

O que sucedeu no fim desses dois anos é objeto de conjetura. Não há plena certeza de que ele tenha chegado a cumprir o seu plano de visitar a Espanha e de pregar o Evangelho ali. O que é mais provável é que, não muitos anos mais tarde, tendo sido sentenciado à morte em Roma, como líder dos cristãos, foi levado para fora da cidade, pela estrada que vai ao porto marítimo de Ostia, e ali decapitado, no local até hoje assinalado pela Igreja de San Paolo Fuori le Mura (“São Paulo Fora dos Muros”).

Todavia, nas palavras de Tertuliano, ficou provado que o sangue dos cristãos é semente.6 A perseguição e o martírio não extinguiram o cris­tianismo em Roma. A igreja ali continuou a florescer com crescente vigor e a contar com a estima dos cristãos do mundo inteiro como uma igreja “digna de Deus, digna de honra, digna de congratulações, digna de louvor, digna de sucesso, digna em pureza, preeminente em amor, an­dando segundo a lei de Cristo e levando o nome do Pai”.7

 

Notas

[1] Ver notas sobre 15:25ss., pp. 208-214s

2 At 22:28.

3 F. J. Foakes-Jackson, Peter, Prince of Apostles (1927, p. 195)

4. ProFlacco 66.

5. De acordo com Dio Cássio (History lx. 6), Cláudio impusera restrições aos judeus romanos no início do seu reinado: “Como tinha voltado a aumentar o número dos judeus, mas dificilmente poderiam ser expulsos da cidade porque eram muitos, ele não os fez sair propriamente, mas os proibiu de reunir-se de acordo com os costumes herdados dos seus ancestrais.” Ver F. F. Bruce, “Christianity under Claudius”, BJRL, XLIV, 1961-62, p.309ss.

6. VerT. W. Manson, Studies in the Guspels and Epistles(1962), p. 37ss.

7. Ver M. Black”, The Scrolls and Christian Origins (1961), p. 114s. Sobre a origem judaica da igreja de Roma, ver também E. Meyer, Ursprung und Anfange des Christentums, III (Stuttgart e Berlim, 1923), p. 465ss.; W. Manson, The Epistle to the Hebrews (1951), p. 172ss., “Notes on the Argument of Romans (Capítulos 1-8)”, New Testament Essaysin Memory of T. W. Manson (1959), p. 150ss.

8. Apology 50. Esta descrição consta do prefácio da obra Epistle to lhe Romans, de Inácio, c. 115 A. D.  Dei um relato do progresso do cristianismo em Roma após 64 A.  D. em The Spreading Flame (1958), p. 162ss.

 

3. Romanos e o Corpo Paulino

“Carta de Paulo aos Romanos — e a Outros” é o título sugerido para esta epístola por T. W. Manson.1 Pois há boas razões para crer que, em adição à cópia da carta levada a Roma, foram feitas outras cópias mais, enviadas a outras igrejas. Uma das coisas que apontam para isso é a evidência textual do fim do capítulo 15 (ver p. 27), que indica que havia em circulação na antigüidade uma edição da carta à qual faltava o capítulo 16. Este capítulo, com suas saudações pessoais, teria valor apenas para uma igreja. É possível que Paulo mesmo tenha sido o res­ponsável pelo despacho de cópias a várias igrejas — não somente porque o conteúdo da maior parte da carta era de interesse e importância para os cristãos em geral, mas também (quem sabe) porque sua apreensão acerca do que o esperava em Jerusalém (ver 15:31) o moveu a deixar esta ex­posição do Evangelho aos cuidados das igrejas gentílicas como uma es­pécie de “testamento”.2

O exemplar mandado para Roma certamente foi guardado como tesouro na igreja daquela cidade, e sobreviveu à perseguição de 64 A. D. Por volta do ano 96 A. D., Clemente “secretário estrangeiro” da igreja romana, mostra-se bem familiarizado com a Epístola aos Romanos. A linguagem desta reaparece repetidamente como um eco na carta que Clemente enviou aquele ano, em nome da igreja romana, à igreja de Corinto. A maneira pela qual repete a linguagem de Romanos dá idéia de que a sabia de cor. É possível que a epístola fosse lida regularmente nas reuniões da igreja romana desde quando foi recebida. É preciso aduzir que, embora Clemente esteja familiarizado com a linguagem da epístola, não parece ter captado seu significado tão completamente como era de esperar. Mas Clemente não está de modo algum sozinho quanto a isso entre os leitores desta epístola!

Pela carta de Clemente se vê claramente que por volta de 96 A. D. algumas cartas de Paulo tinham começado a circular em outros lugares além daqueles para onde foram inicialmente enviadas.3 Clemente, por exemplo, conhece e cita 1 Coríntios. E não muitos anos depois, um anônimo benfeitor de todas as eras subseqüentes transcreveu pelo menos dez cartas paulinas num códice do qual foram feitos muitos exemplares para uso em muitas partes do mundo cristão.” Desde o começo do segundo século, as cartas de Paulo circulavam como uma coleção — o corpus Paulinum — e não isoladamente.5 Os escritores do segundo século — tanto os ortodoxos como os heterodoxos — que se referem às cartas paulinas, conheciam-nas na forma de um corpo de escritos.

Um desses escritores — da variedade heterodoxa — foi Márcion, natural do Ponto, na Ãsia Menor, Márcion foi para Roma por volta do ano 140 A. D. e poucos anos mais tarde publicou um cânon da Escritura Sagrada. O autor rejeitava a autoridade do Velho Testamento e susten­tava que Paulo fora o único apóstolo de Jesus que se mantivera fiel, sendo que os demais haviam corrompido o ensino de Cristo com misturas ju­daizantes. Seu cânon refletia suas idéias peculiares. Consistia de duas partes — o Euangelion, edição do Evangelho de Lucas que começava com as palavras: “No ano 15 de Tibério César, Jesus desceu a Cafarnaum” (ver Lc 3:1; 4:31); e o Apostolikon, que abrangia dez das epístolas paulinas (excluídas as cartas a Timóteo e a Tito).

Gálatas, objeto da predileção natural de Márcion por causa de sua ênfase anti-judaizante, ocupava o primeiro lugar no Apostolikon de Már­cion. As outras epístolas vinham depois em ordem descendente, segundo a extensão. As epístolas “duplas” (isto é, as duas aos Coríntios e as duas aos Tessalonicenses) foram, para aquele fim, consideradas, cada par, como uma única epístola. Assim, Romanos vinha depois de Coríntios. E junto a cada uma das epístolas vinha um prefácio. O de Romanos diz o seguinte: “Os romanos vivem na região da Itália. Já tinham sido visitados por falsos apóstolos, sendo induzidos a reconhecerem a autoridade da Lei e dos Profetas, com o pretexto do nome do Senhor Jesus Cristo. O após­tolo, escrevendo-lhes de Atenas, os chama de volta à verdadeira fé carac­terística do Evangelho”.

Esta não é uma inferência que se poderia deduzir naturalmente da argumentação de Paulo. Márcion, porém, assumia pressuposições na abordagem das epístolas e as afirmava categoricamente. Onde ele encon­trava, nas epístolas, afirmações contrárias a essas pressuposições, con­cluía que o texto apostólico fora adulterado por escribas judaizantes, e fazia emendas para ajeitá-las ao seu modo de entender (ver pp. 26ss.). E a influência do cânon de Márcion foi tanta — chegando a ultrapassar os limites dos seus seguidores — que muitos MSS “ortodoxos” das epístolas paulinas contêm os prefácios marcionitas.

O mais antigo MS de epístolas paulinas que chegou até nós, datado do fim do século segundo, contém o mais curto corpus Paulinum, consis­tindo de dez epístolas, juntamente com a Epístola aos Hebreus. Este MS (o papiro 46, um dos papiros bíblicos de Chester Beatty) provém do Egito, e no Egito (diferentemente do que ocorria em Roma) Hebreus era considerada epístola paulina já em 180 A. D. No P 46 (como lhe cha­maremos daqui por diante), Romanos vem em primeiro lugar.

Romanos ocupa o último lugar entre as epístolas paulinas enviadas a igrejas noutro documento dos últimos anos do segundo século — o “Cânon Muratori”, uma lista de livros do Novo Testamento reconhecidos em Roma. Esta lista credencia o corpus Paulinum mais longo, de treze cartas, pois em seguida às cartas a igrejas, acrescenta as enviadas a pes­soas individualmente — não só Filemom, mas também Timóteo e Tito.

Na ordem em que finalmente se fixou, Romanos tem lugar de honra entre as epístolas paulinas. Historicamente, isto se dá evidentemente por­que ela é a epístola mais comprida. Mas há uma validade ingênita na con­cessão desta posição de primazia à epístola que, acima de todas as outras, merece o título de “Evangelho Segundo Paulo”.

Notas

 

1. Studies in the Gospels and Epistles, p. 225ss.

2. Outra idéia, mas muito menos provável, é a de que a Epístola aos Romanos como  a conhecemos foi expandida partindo de uma epístola geral anterior “escrita por Paulo, ao mesmo tempo em que escreveu aos gálatas, às igrejas mistas surgidas ao redor de Antioquia e além, na Ãsia Menor” (K. Lake, Earlier Epistles of St. Paul, 1914, p. 363; ver F. C. Burkitt, Christian Beginnings, 1924, p. 126ss.).

3. O próprio Paulo deu alguns passos iniciais para assegurar isto; ver suas orientações em Cl 4:16 para que os colossenses e os laodicenses permutassem as cartas recebidas dele. Sua Carta aos Gálatas foi enviada a diversas igrejas (Gl 6:11 implica em que originalmente um único MS passou de igreja em igreja, em vez de cada igreja receber um diferente; mas algumas igrejas teriam feito cópias para si, antes de passá-lo adiante). A Epístola aos “Efésios” foi feita para desempenhar a função de carta circular e provavelmente foi despachada em certo número de exemplares logo de início.

4.  Ver G. Zuntz, The Text of the Epistles (1954), p. 14ss., 276ss. O Dr. Zuntz dá razões para o pensamento de que o corpo de escritos foi compilado e publicado em Alexan­dria, desde que dá sinais de “dependência dos métodos acadêmicos alexandrinos de edi­toração” (op. cit., p. 278). Uma opinião amplamente dominante é a de que ele foi compilado em Éfeso (ver E. J. Goodspeed, Introduction to the New Testament, Chicago, 1937, p. 217ss.; L. L. Milton, The Formation of the Pauline Corpus of Letters, 1955, p. 44ss.); um romântico embelezamento desta opinião é a tese de J. Knox de que o principal fator na obra de compilação do corpo foi Onésimo, ex-escravo de Filemom e agora (c. 100 A. D.) bispo de Éfeso (Philemon Among the Letters of Paul, Chicago, 1935).

5.  Provavelmente havia coleções “regionais” mais antigas, como uma coleção das car­tas enviadas à província da Ásia (Efésios, Colossenses e Filemom) e das enviadas à Macedônia (1 e 2 Tessalonicenses e Filipenses).

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